| Pri Haydée Amor é estado de graça e com amor não se paga. Amor é dado de graça, é semeado no vento,(...) Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor. De Carlos Drummond de Andrade |
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Quinta-feira, Junho 15, 2006 Meu coração está aos pulos! Quantas vezes minha esperança será posta à prova? Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, que reservo duramente para educar os meninos mais pobres que eu, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais. Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais? É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz. Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e dos justos que os precederam: ¿Não roubarás¿, ¿Devolva o lápis do coleguinha¿, Esse apontador não é seu, minha filhinha¿. Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha ouvido falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar. Só de sacanagem! Dirão: ¿Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba¿ e eu vou dizer: Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau. Dirão: ¿É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal¿. Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? IMORTAL! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final! Elisa Lucinda, 12 de agosto de 2005. posted by PRISCILA SOUZA | 1:42 AM Quarta-feira, Junho 14, 2006 De Fabrício Carpinejar
Ser inteiro custa caro. Endividei-me por não me dividir. Atrás da aparência, há uma reserva de indigência, a volúpia dos restos. Parto em expedição às provas de que vivi. E escavo boletins, cartas e álbuns - o retrocesso da minha letra ao garrancho. O passado tem sentido se permanecer desorganizado. A verdade ordenada é uma mentira. O musgo envaidece as relíquias. Os dedos retiram as teias, assisto à revoada de insetos das ciladas. Fujo da claridade, refulge a poeira. O par de joelhos na imobilidade de um rochedo. Reviso o testamento, alisando a textura como um gramático da seda. Desvendo o que presta pelo som do corte. O que ansiava achar não acho e esbarro em objetos despossuídos de lógica que me encontram antes de qualquer pretensão. O que fiz cabe numa caixa de sapatos. Colecionava talhos de madeira, bonecos adornados com a ponta miúda do canivete. Lá estava um dos sobreviventes, desfocado, vizinho das medalhas escolares e dos parafusos condoídos de ferrugem. Um auto-retrato não seria tão fidedigno. Eu era aquela frincha de chão florido, casca e húmus. Quantas foram as miudezas que não combinavam com o conjunto e, na falta de harmonia, abandonei no depósito da infância? E se faltou confiança para restaurá-las ao convívio, faltou coragem para excluí-las em definitivo. Somos o desperdício do que estocamos. Não aprendemos a desaprender. Não doamos nada, nem a palavra passamos adiante. O porão tem vida própria e respira o que jogamos fora. O que refugamos na ceia volta a nos mastigar. Tudo pode fermentar: o forro, os passos, o odor do braço. Tudo pode nascer sem o mérito do grito, como um murmúrio ou estalar de um abraço. Tudo pode nascer, ainda que abafado. (Segunda Elegia, Terceira Sede) posted by PRISCILA SOUZA | 1:35 AM Fabrício Carpinejar Recebi de presente no Dia dos Namorados uma gaiola. Sim, demorei um véu de papel para desvendar o que havia dentro do pacote triangular. Minha surpresa não foi pouca. A Ana me olhava com expectativa. Levei um susto de boca. Depois um susto de olhos. Em seguida, um susto de cabelos. Uma gaiola vazia, branca, como hélice de moinho. Uma gaiola como um engradado de ostras. Uma gaiola como um chapéu na mesa, posando de natureza-morta. Agradeci com os cílios abanando e já desandei a deduzir o que significaria. "Será que é uma indireta para ficar mais em casa?" "Ela quer me deixar preso?" "Sou o pássaro que não enxergo?" "São para minhas leituras avoadas?" Tantas alternativas que não fechei conclusão nenhuma. A Ana, não sei se disse, é adepta da alucinação mais do que do sonho. Pois a alucinação acontece quando estamos acordados. Ela mexe os ombros para as dificuldades. Pode gastar seu salário em um dia para torná-lo incomum, mesmo que tenha que passar fome no resto do mês. É impulsiva e passional. Briga para amar. Como se pedisse espaço nos seus braços para me segurar com mais força. Eu escuto em pânico a conversa dos seus braços. A gesticulação demitindo as palavras. Nunca a verei sendo avarenta no amor. Ela não termina em meu corpo. Ela me beija como quem tira água do poço. Devagar: o balde do rosto indo de um lado para o outro. O sol é parte do seu vestido. Não tenho aves, muito menos apregôo o cativeiro. Fui para o serviço, com a dúvida em riste. O que farei com a gaiola? De repente, recebo um buquê de flores com raízes. As raízes intactas como seios adolescentes. As raízes com as cutículas da terra. As raízes caçando insetos para se proteger da chuva. As raízes recém arrancadas, ainda esquecidas do corte. Ao chegar em casa, abro a gaiola, encaixo um vaso em seu centro e planto as flores. As flores viraram meus pássaros. Meu cardume aéreo. Ainda que presas, voam. Voam melhor porque enraizadas. Nada impede das hastes ultrapassarem as barras e seguir planando com sua plumagem de pólen e cor até o teto. Não há chave para conter a luz magra. O casamento é uma gaiola de flores, bem que poderia ser um vaso, mas um vaso quebra. Quanto mais fixo, mais abraça a altura. Suas raízes são as asas. Dessa vez, Ana não precisou me explicar. Ela é a minha explicação. posted by PRISCILA SOUZA | 1:26 AM |
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